domingo, 20 de maio de 2012

Mantendo-se nos eixos

    Ultimamente, como filósofo amador, tenho chegado a algumas conclusões que considero importantes, contudo a mais importante delas é que de nada adianta chegar a muitas conclusões se estas não são aplicadas na prática, se não viram avanços palpáveis na vida e em como é conduzida.

    Iniciei, então, uma espécie de trajetória onde pretendo incorporar aos poucos algumas dessas conclusões para ver passo a passo como resultam em benefícios ou prejuízos; mal comecei e já tenho a nítida sensação de que valeu a pena. Porém ainda há muito chão pela frente.


    Inicialmente gostaria de trazer a ideia de "eixo psicológico"; quem aqui nunca ouviu a expressão "tirar fora dos eixos" ou algo semelhante? o eixo seria o ponto de equilíbrio, a base forte sobre a qual é possível se apoiar sem medo de que balance. Assim, para efeitos desse post, um eixo psicológico é formado pelo núcleo duro de concepções e atitudes das quais o indivíduo procura não abrir mão em circunstância alguma.

    Algumas pessoas são maleáveis ao extremo, altamente sugestionáveis de sorte que se apoiam muito em outras pessoas, modismos, o que os outros irão pensar, o que esperam dela, etc. Outras, por outro lado, têm regrados quase todos os aspectos de sua vida e antes irão morrer do que mudar suas opiniões.

    O objetivo então seria atingir um ponto de equilíbrio com o tal núcleo duro de concepções e uma certa abertura ao novo, à possibilidade de aprender sempre.

    Começando a filosofar um pouco (e talvez perdendo algum leitor mais impaciente) devo dizer que tenho observado muitas pessoas próximas se enquadrarem na categoria das maleáveis ao extremo, sinal de que sou também muito maleável, já que, seguindo um sem número de pensadores, é possível dizer que enxergamos nos outros um reflexo de nós mesmos.

    Vi também algumas poucas pessoas que parecem ter atingido o equilíbrio, sobre as quais me deterei agora.
    Essas pessoas simplesmente seguem os seus caminhos, pensam um pouco sobre os rumos a tomar e os seguem sem parar por conta de alguém que não gostou de sua decisão. Elas não se preocupam em agradar a todos e estão preparadas para ser malquistas por alguns aos quais não se dobraram quando supostamente deveriam.
    Não raro conseguem pensar a longo prazo e transcender as ilusões que propõem soluções fáceis aos problemas imediatos, para elas a maior derrota é sucumbir aos seus objetivos em troca de algum ganho simplesmente financeiro ou de algo igualmente superficial.

    Ao final, estes com um eixo psicológico equilibrado conseguem liberdade, autonomia, por serem imperturbáveis, incansáveis.

    Chegar a este ponto requer um feixe de virtudes do qual, posso dizer, ainda não disponho; todavia vejo que é possível.

    É uma boa pensar se você está sendo o tipo de pessoa maleável ou mesmo o turrão teimoso que não muda. De que adiantaria viver levado pelos outros ou fechado às coisas novas sem sequer tê-las experimentado?

Por hoje é só..até mais ;)

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Tornar a verdade inacreditável

    Esses dias, em meio a minhas viagens, me deparei com uma frase que gerou grande impacto à primeira vista e ainda hoje me faz tomar algumas atitudes de superação. Trata-se de um dos chamados "aforismos de Napoleão", excertos do pensamento de Napoleão Bonaparte publicados no Brasil sob o nome de "Manual do Líder".

"o meio de ser acreditado é tornar a verdade inacreditável"

é a frase; por conta dela tenho sido impelido a trabalhar para que minha vida, em verdade, torne-se inacreditável; parece um tanto pretencioso, mas conforme expus alguns dias atrás, começar algo já é um grande passo.

    Expus também, que o fato de não terminar o que se começa retira quase toda a utilidade de ter começado; é talvez como se fosse criado um anexo à pessoa que somente a ajudará se for desenvolvido até certo ponto, caso contrário pode até atrapalhá-la na medida em que perde a capacidade de levar as coisas adiante.

    Assim, aquele que conclui seus empreendimentos consegue tornar a verdade inacreditável, consegue ser aquele cara que veio lá de baixo e triunfou, uma vez que a coisa mais fácil é ficar pelo caminho. 

    O mundo pune e premia em uma seleção natural; se você for comum (ou "normal", capitulando a ideia do post anterior), terá uma vida acreditável e, portanto, sempre terá de provar tudo o que faz, carecerá de firmeza, quem sabe obedeça em vez de ser obedecido; todavia isso são meras reflexões menos defensáveis do que a ideia central a qual quero expor.

    Voltando ao foco, devo dizer que a frase aparece como um jogo de palavras genial no qual o primeiro acreditar quer dizer confiar. Para que as pessoas confiem em alguém sem conhecê-lo a fundo é necessário que esse alguém dê provas do merecimento de tal confiança; esta prova, no caso, é a verdade inacreditável gerada.

    Antes da segunda guerra mundial, por exemplo, o partido nazista conseguiu uma recuperação incrível da economia alemã, então em severa crise. Visto que a economia, quando saudável, eleva consideravelmente o nível de vida da população e que à primeira vista os meios utilizados por Hitler só trouxeram benefícios, era como se ele tivesse operado um milagre.

    A verdade tornou-se inacreditável e Hitler foi acreditado pelo povo para fazer o que quisesse.

    Obviemente aqui não faço apologia ao que ele decidiu fazer com essa confiança, porém a questão foi que ele a obteve e somente conseguiu isso em decorrência de agir no plano concreto; a grande massa dificilmente segue fervorosamente ideias e somente ideias.

    Saindo do exemplo de Hitler e de qualquer outro que possa se encaixar no caso (o próprio Napoleão Bonaparte, que ascendeu após vitórias militares) e passando à realidade de nossas vidas, podemos dizer que é importantíssimo ter a confiança dos que nos rodeiam; mesmo se o objetivo final não for liderar e capitanear uma carreira meteórica.

    Desde uma entrevista de emprego até a apresentação de um trabalho ou papo de botequim, pode-se perceber um diferencial dos que põem em prática, que fazem, agem; a vida é feita de escolhas, é possível afirmar que muitos, até uma certa idade, têm uma vida passível de tornar a verdade inacreditável, depois, porém, se acomodam por ter chegado a um ponto confortável ou perdido qualquer perspectiva de melhora.

    Ora, fosse fácil chegar a tal ponto, muitos o fariam, conforme ouvi certa vez, que graça tem procurar se é fácil achar?

    Em minha curta experiência de vida, sugeriria que se buscasse um pouco do que Platão entendia como a educação ideal (exposta alguns posts atrás), em que o indivíduo conhecedor de línguas, música, matemática, esportes, oratória e talvez mais algumas habilidades seria o homem completo.

    Hoje em dia é realmente complicado ter tempo e dinheiro para dedicar-se tão somente ao aprendizado de novas habilidades e aprimoramento das antigas, no entanto aprender a tocar um instrumento musical e estudar uma nova língua pode ser um ótimo começo.

    Para finalizar, talvez seja uma fala do "capitão óbvio", contudo só se aprende a fazer algo fazendo; se quer se expressar melhor em público, por exemplo, deve romper a barreira que impede expressão frequente em público como um martelo rompe um vidro; ter a posse deste martelo que rompe as paredes erigidas por nós mesmos é a chave para tornar a verdade inacreditável e, ao fim, ser acreditado.

sábado, 14 de abril de 2012

Ser do contra

    Tenho observado que a maioria das pessoas busca uma "vida normal", "só quer viver em paz" ou algo do tipo; é praticamente um mantra repetido todos os dias por quase todos.

    Uma pessoa "normal" hoje nasce, cresce no seio de uma família normal, arranja um meio de ganhar dinheiro para ter e fazer o que uma "pessoa normal" tem direito a ter e fazer para morrer como uma "pessoa normal" que não fez diferença alguma ao mundo como um todo.

    Ora, "é muita pretensão", diriam alguns, "querer mudar o mundo"; aí temos principalmente pessoas normais resignadas por estarem levando suas vidas normais sem contribuir para a humanidade; por estarem em tal situação talvez pense que todos são como elas e também não mudarão nada para melhor.

    O problema não está fundamentalmente em ser normal, já que o próprio sentido de normal concerne ao que obedece à norma, o que é a regra, não a exceção. Dessa maneira qualquer maioria em algum aspecto contribuirá por sua própria existência para fazer parte da normalidade.

    Destaco aqui que o problema está em querer ser normal; para melhor expor o que quero dizer, farei uso de uma máxima que qualificaria como sensacional:
"O problema com a maioria não está em mirar muito alto e errar, mas em mirar muito baixo e acertar"                                              
Michelângelo

    Assim, da mesma forma que quem procura acha, ou que "o segredo" e "a lei da atração" entram em ação, se você quer ser uma simples peça substituível para a humanidade, conseguirá isso; se quiser, contudo, tornar-se uma engrenagem fundamental ao funcionamento da máquina, deve  mirar alto, o mais alto possível. Se errar, ao menos é grande a chance acertar mais alto que a maioria, que os normais.

    Um bom começo para, efetivamente, fazer a diferença, é agir de forma diversa aos normais; não defendo aqui que devemos ser radicais e adotar uma posição diferente e firme de uma hora para outra, talvez fechar-mo-nos em um mosteiro ou apoiar a extrema esquerda/direita - há um núcleo duro da normalidade responsável por nos manter civilizados, ou seja, na civitas convivendo em sociedade.

    Os grandes homens e mulheres da história jamais poderiam ser ditos comuns e é justamente isso que me faz poder citá-los com a tranquilidade de saber que o leitor (tanto o normal quanto o "do contra") o conhece.

    Obviamente, nem todos os que decidirem fugir à normalidade resultarão em grandes referências para o futuro da humanidade, a mensagem objetiva que aqui quero deixar não é a positiva "seja diferente e farás a diferença", mas a negativa "seja normal e não farás a diferença".

    O normal está sentenciado ao comodismo; finalizo aqui com algumas citações que dão um acabamento à conclusão obtida 

"Comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e de repente você estará fazendo o impossível."
São Francisco de Assis

       A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos.

Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz.
Platão

Felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente.
Érico Veríssimo

Uma vida sem desafios não vale a pena ser vivida.
Sócrates 


"O que fazemos em vida ecoa pela eternidade."
(Trecho do Filme Gladiador)




segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Terminar o que começou

    Tenho reparado que ultimamente iniciei várias coisas; vários trabalhos, muitas ideias, novos esportes, instrumentos musicais e por aí vai...

    O caso é que flagro-me com dificuldades para terminar o que começo, após um começo não raro prodigioso, a determinação mais das vezes morre frente às primeiras pedras que apresenta qualquer caminho.

    Este mal, não o vejo somente em mim, mas nos que me cercam de modo geral; todos têm sonhos e planos que pretendem concretizar, no entanto a maioria sucumbe à tal ou qual fator de modo que dificilmente cumprem seus objetivos e fazem, dessa maneira, com que os sonhos carreguem a fama de serem apenas sonhos.

    Formamos na cabeça uma perspectiva na qual os jovens que sonham são ingênuos e passam por um mágico período antes de "quebrar a cara", ver cair sobre as costas a crua realidade de um mundo que se esforça por não realizar sonhos.

    Os adultos que permanecem sonhando geralmente aparecem rotulados como utópicos e são observados de longe pelos outros como aqueles que logo logo se decepcionarão e "cairão na real".

    É verdade que isso só acontece porque em quase todas as vezes os utópicos realmente "quebram a cara", não nego, mas em minha humilde opinião de filósofo amador isso se dá pelo fato de não ser qualquer um o possuidor da capacidade de exercer verdadeiramente o papel de "utópico"; eu explico.

    De nada adianta alimentar sonhos grandiosos se pouco é feito na prática para realizá-los. Posso estar explicando o óbvio, porém muitas vezes grandes conclusões são tiradas na simplicidade.

    Quero dizer que são poucos, arrisco dizer pouquíssimos que fazem de fato o necessário para perseguir um sonho; os outros 99% da população mundial esbarram na preguiça, dificuldades, escolhas erradas. Muito disso parece estar também em não terminar as coisas que se começa.

    Qualquer um pode começar a fazer qualquer coisa, todos iniciamos de alguma forma a realização de nossos sonhos quando simplesmente os idealizamos; iniciar algo já é uma vitória.

    Seguindo um brocardo dito pelos antigos mestres samurais do Japão Feudal podemos ter uma síntese da sabedoria necessária para a realização de sonhos; diziam: "Após a vitória, aperte a alça do capacete."

    Se o agora vitorioso continuar sua jornada rumo ao próximo passo, a coisa mais certa é a próxima batalha; uma vez que se acomode a perderá, bem como à guerra se persistir acomodado.

    Quando não se termina o que foi começado, sobressai a fraqueza, aquilo que acomete à maioria das pessoas e que faz com que estejam no grupo da grande massa que sempre, em seu íntimo, aspirará ao que não pode obter, não por alguma limitação externa, mas por culpa do próprio indivíduo que não teve forças para conduzir seu exército à próxima batalha.

    "Não está morto quem peleia" costuma-se dizer por aí; quando se para de pelear, trabalhando e utilizando quase todo o tempo livre para lazer, por exemplo, é que se caminha para a morte; morte da vontade, das aspirações, dos sonhos.

    

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O Efeito Quindim

    Pode até parecer estranho um post com esse nome, como se talvez fosse algo simplista ou cômico; nesse caso posso dizer que é uma metáfora que encontrei para descrever a ideia a qual me veio nesses últimos dias e me vem várias vezes quando vejo um casal se separando, alguém se desfazendo de roupas, de animais de estimação ou mesmo de amigos.

    Trata-se de um aspecto interessante da natureza humana, talvez uma imperfeição que possa ser lapidada ou uma espécie de Janus¹ que guarde um portal no qual se vai a uma nova viagem ou se retorna para o que antes era.

    Este texto trata da incrível habilidade que têm as pessoas para, após elevarem suas vidas a um novo patamar ou mesmo conquistar o que sempre sonharam, quedarem-se infelizes e frustradas, com a sensação de que merecem ou desejam mais; como um quindim que é muito bom, dois quindins que são melhores ainda, três quindins que até passam e quatro quindins, quando o mesmo doce que causara deleite torna-se enjoativo.

    A metáfora pode não ter sido a melhor, mas passa um pouco a essência do que quero dizer; para melhor ilustrar convido agora o leitor a uma viagem.

    O ponto de partida é um pobre vilarejo localizado na República Democrática do Congo, antigo Zaire; este país encravado no coração do continente africano, no exato lugar onde um punhal é fincado na abertura do desenho Tarzan. (:
    Nesse vilarejo uma pequena família luta pela sobrevivência, crianças que já nasceram soropositivas correm pela mata em busca de água e alimento para levarem à clareira onde atualmente suas famílias estão acampadas, não se sabe até quando. O objetivo maior da família é obter um teto seguro e a certeza de que se alimentarão no dia seguinte.

    Agora, seguindo na viagem vamos a um país islâmico do oriente médio no qual ocorrem protestos e grandes embates por um governo democrático, estamos em plena primavera árabe² e um jovem com ideias revolucionárias prepara-se para sua próxima ação na esperança de algum dia a ditadura que assola seu país seja subvertida em um estado democrático de direito. Este é o seu sonho, a libertação de seu povo.

    Esta viagem vai seguindo com inúmeras escalas, talvez conte sobre um operário chinês e suas quinze horas de trabalho diárias, um soldado, um vendedor, um empresário; em suma, todos temos nossas metas e a firme ilusão de que no momento em que as alcançarmos teremos algum tipo de satisfação inédita.
    Talvez a viagem termine em algum país nórdico com um cidadão tornando-se um número a mais nas altas taxas de suicídios destes países por não mais ter a que aspirar.

    Claro que o que aqui exponho são exemplos amplos, alguns tipos humanos que permitem a demontração de ideias e princípios desde antes de Gil Vicente³.

    Mesmo aqueles que dizem contentar-se com o que têm sempre desejam uma coisinha ou outra, um avanço, é claro, muitos irão dizer, se não tivermos um objetivo, um horizonte que se renova a cada passo, não teria sentido viver.

    Pois então, após uma passagem pelas aspirações das pessoas até o ápice do IDH, vemos que os objetivos comumente traçados pela humanidade não levam a um final feliz; nesses momentos me vem a famosa frase do Fausto de Goethe "de que adianta o eterno criar, se a criação em nada adiantar?".

    Nos últimos dias tenho lido um ótimo livro indicado e emprestado por um professor, da autoria de Luís Felipe Pondé; o autor diz-se um filósofo trágico na linha de Nietzsche e Schopenhauer e conclui que a felicidade como é vendida e buscada atualmente é uma falácia. Ele prossegue afirmando que todos temos uma gama imensa de defeitos e desejos frutos dos sentidos, porém que mediante uma hipocrisia institucionalizada ocultamos.
    Utiliza-se Freud e muitos outros para dar suporte aos escritos, entre eles uma impressionante gama de pensadores gregos. Mostra que a mitologia reflete dramas psicológicos pertinentes e atuais. O historiador pode prever o futuro, pois o homem tropeça sempre nas mesmas pedras, diria Maquiavel.

    Concordo com ele de que a maioria de nós é escravo dos desejos, defeitos e confusões que se apresentam, que a humanidade vive e viverá ainda em uma condição de eterna insatisfação e consequente infelicidade geradas grande parte pelo que singelamente chemei "efeito quindim".

    Ao contrário dele, porém, acredito que esse mundo de pessimismo e insatisfação tenha uma saída, ela pode ser quase invisível, mas volta e meia mostra-se; não é de fácil percurso, se o fosse, muitos mais a tomariam; acredito que as religiões em alguma medida estão certas, que montam um mesmo quebra-cabeças porém com as peças cortadas em formatos diferentes de modo a não se encaixarem.

    Alguns dos mais sábios membros que esta humanidade já teve, após o nível de ser e de saber que suas religiões lhes permitiram ter, conseguiram produzir pérolas das mais valiosas de conhecimento científico cuja existência, poderia opinar, não se daria da mesma forma sem o suporte religioso por trás; um exemplo de retirada do elemento numinoso e, portanto, laicização do conhecimento vem do célebre pensador Hugo Grotius, o qual mostrou um direito que "existiria mesmo se Deus não existisse".

    O caso é que acredito que o eterno criar se justifica, que o mundo é suficiente como pensou Kant e que uma vez descoberto o caminho pela via do esclarecimento (ainda como Kant) é possível segui-lo; é possível mas não obrigatório, tanto que quase ninguém o segue; o caminho à felicidade (não a efêmera tratada por Pondé) é tortuoso, é de longo prazo, condição quase proibitiva a seres imediatistas como nós; além de tudo o caminho deve passar longe dos sentidos físicos, assim como a mitologia muitas vezes desprezada, trata-se de um drama psicológico, pois não é com a construção da torre de babel divulgada pela mídia que chegar-se-á ao paraíso, talvez deva-se erguer uma torre interna que sobrepuje nossos vícios e defeitos.

Quem sabe assim fiquemos satisfeitos com o primeiro quindim.

Até a próxima!


¹ Janus; deus cuja crença remonta à antiga Roma, ele guarda o portão da cidade em possui duas faces, uma voltada para cada lado.


² Primavera Árabe; nome dado à série de revoluções contemplada recentemente no Oriente Médio.


³Gil Vicente; Escritor ibérico da alta idade média na época do trovadorismo, compunha autos representando tipos humanos e focava suas obras na supremacia da virtude.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Olhar para trás

    Estava agora dando uma olhada em posts antigos do blog e percebendo como as coisas mudam com o tempo; ele passa e muitas das coisas sobre as quais você tinha uma opinião formada ou uma certeza, vão por água abaixo.
    
    A cada período sou levado a compreender a máxima "só sei que nada sei" de maneiras diferentes e começo a perceber que o mais sensato seria não afirmar com tanta força, pois momentos depois, mesmo aquele que afirmou não o teria feito.

    Posso dizer que agora me vejo como um pré adolescente o qual pensava muita besteira, virei um adolescente que continuava pensando muita besteira e, apesar de minha cabeça atual tentar me convencer de que hoje mudei e estou em um patamar diferenciado, é possível afirmar que sou um jovem pensador de muitas besteiras baseado no homem adulto e consolidado a caminho.
    
    Chego à conclusão de que uma pessoa a qual ache que seu pensamento é 100% certo e que sempre será assim tem grandes chances de estar errada e sequer perceber isso mesmo quando modificar totalmente sua cabeça anos depois.

    Um bom meio de aprender a ver as coisas de outra maneira é ouvir os mais velhos, a experiência é algo que não pode ser adquirido de uma hora para outra; com o tempo entende-se mais o ser humano, a natureza humana. Percebe-se que mesmo em tempos muito diferentes, com tecnologias diversas nunca vistas, o homem tropeçará sobre as mesmas pedras, cometerá erros idênticos aos cometidos desde a pré história.

    Sempre haverá alguém que perecerá por sua ganância, que comprometerá o resto da existência por um ato impensado ou que trocará família e amigos pelo poder, estes acontecimentos são correntes e fazem com que os apreciemos de forma semelhante na guerra de tróia, em antígona, em dom casmurro ou na novela das 9.

    O "eu" que chega no futuro próximo pode pensar diferente, contudo o "eu" de hoje tenta de alguma forma escapar a estes tropeços os quais pegam a humanidade desprevenida há milênios.

Deixo aqui um poema frequentemente citado por um professor
Até a próxima!
-------------

Antonio Machado - Caminante no hay camino

Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.
  

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Da primeira vez que me assassinaram..

    Saudações aos meus poucos, mas selecionados, leitores (:

    Após mais um tempo relativamente longo sem postar aqui no blog, faço um post justamente sobre as coisas que me levam cada vez mais a abandonar bons hábitos como o de escrever por aqui e outros.

    O que sinto acontecer a cada dia, vejo que não ocorre somente comigo; meus conhecidos, pessoas que vejo nas ruas, gente que vi quando na pré adolescência e reencontro agora, enfim, parece avançar sobre a pessoa a partir de certa idade uma espécie de mal generalizado.

    A cada dia o trabalho, a faculdade, a vida me cobram uma pequena parcela a mais do tempo. O que não pôde ser feito ontem fica para outro dia junto com a gigante lista de todo o "por fazer". À medida que as obrigações vão ganhando espaço e que aparecem novas, diminui a chance de dispor de um tempo para refletir.

    Sábias palavras embora ditas por um pensador radical:
    "O homem que não reflexiona, não tem tempo de julgar a si mesmo." Barão de Holbach

     Penso no que tenho feito nos últimos tempos e qual a minha surpresa quando percebo que, tivesse eu refletido um pouco mais, faria várias coisas de modo diferente, daria outras prioridades; eis uma palavra-chave: prioridade.
    Eu tinha por hábito pensar que minhas prioridades estavam em lugar muito distante do que descobri estarem; para verificar a maior prioridade no momento me faço uma simples pergunta "quantas horas de meu dia gasto nisso?"
   
    Veja que, se você dorme durante certo tempo, por exemplo, e passa o dia pensando no momento em que for dormir, aí estará a prioridade; se trabalha e estuda no mesmo ramo de modo que seus dias sejam consumidos por funções deste ramo, aí está a prioridade; se acabou de iniciar um relacionamento e pensa nele a todo momento..eis a prioridade.

    Apesar de não me utilizar frequentemente de citações bíblicas, aí vai uma que considero pontual:
   "Onde está teu tesouro, também está teu coração." (Mt 6, 19-21)

    Ocorre que por alguma razão muito incoerente, não raro as prioridades (tesouros) que temos em nossas vidas são praticamente o oposto daquelas que tencionamos ter; volta e meia percebemos que não estamos "querendo a coisa certa".
    Onde quero chegar?

    Quero dizer que pouco a pouco a vida e "o mundo" nos levam a nascer, crescer, trabalhar, se reproduzir e morrer; muitos bons hábitos que um dia tivemos, muitas possibilidades de fazermos algo diferente, realizar descobertas, são eclipsadas pelas exigências do dia a dia. Isso se dá de forma tal que nas horas de "folga" não mais temos força ou motivação para inovar.
    Passam-se alguns momentos de lazer cuja função parece ser, em alguns casos, a de garantir a maior produtividade quando da volta ao trabalho.

    De minha parte posso dizer que cultivava o hábito de escrever poemas diários, correr, escrever com as duas mãos e alguns outros. Volta e meia me vinha um insight inventivo o qual me rendeu várias ideias de invenções que facilitariam a vida das pessoas, volta e meia vinha uma sacada de um post para o blog. Agora as coisas estão mais esporádicas. Após certa reflexão, tento resgatar tudo.
    Parece que a cada dia que um bom hábito deixa de se concretizar, ficamos mais "capengas", mais senhores de uma só arte, desenvolvendo um só aspecto mais importante da vida quando deveríamos buscar sermos completos. O ser humano, e isso já era dito por Platão¹, deveria ser completo, buscar os mais variados conhecimentos.

    Para encerrar e ilustrar este post, coloco aqui alguns versos de Mario Quintana:

"Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.
Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou."

    Aconselharia que não deixassem morrer os aspectos de suas vidas que os tornam únicos, ou que cuidassem para que o mundo não os "assassine" nas não raras ocasiões em que tentar fazê-lo.

Até a próxima!


--------------------------------------

¹ Vejam como Platão idealizou a educação



O curso de estudos, para Platão deveria ser de cinco períodos:
1º- dos 3 aos 6 anos:
Prática do pentatlo (Nome colectivo de cinco exercícios que constituíam os jogos da Grécia, em que entravam os atletas: salto, carreira, luta, pugilato e disco. Dança e música para ambos os sexos).

2º- dos 7 aos 13 anos:
Introdução paulatina da cultura intelectual e acentuação dos exercícios físicos. A partir dos 10 anos, aprendizagem da leitura e escrita e cálculo por processos práticos. Afasta-se assim dos costumes atenienses que começavam a educação intelectual antes dos 10anos.

3º- dos 13 aos 16 anos:
Período da educação musical. O programa é dividido em duas secções: uma literária, compreendendo gramática e aritmética; outra musical, compreendendo poesia e música. Ensina-se a tocar a cítara e prefere-se a música dórica, enérgica e viril.

4º- dos 17 aos 20 anos:
Período da educação militar. Os jovens deverão adquirir resistência e uma saúde a toda a prova. Será preciso harmonizar a música à ginástica, faziam-se os homens ferozes. Somente com a música, produzir-se-iam os afeminados.

5º- dos 21 anos em diante:
Apenas os jovens mais capazes devem continuar a educação já com carácter superior e baseada nas Matemáticas e Filosofia. Entre eles, seleccionam-se os futuros governantes, prosseguindo sua educação até os 50 anos.

Essa educação pode ser distribuída da seguinte forma:
· Dos 21 aos 30 anos: estuda-se com profundidade: aritmética, geometria e astronomia.
· Dos 31 aos 35 anos: predomínio da formação filosófica e dialéctica, sem prejuízo dos estudos matemáticos.
· Dos 35 aos 50 anos: O magistrado será incumbido de uma função pública e empregará os seus talentos para a prosperidade do Estado. Ninguém será admitido ao governo, antes dos 50 anos de idade.

    "Na República e nas Leis, para além de desenhar o seu estado ideal, Platão  também define o sistema educacional que o manterá, apresentando assim as suas ideias sobre a educação, o valor da poesia e da música, a utilidade das ciências, da filosofia e do filósofo.
    Platão começa por defender uma sólida formação básica que evolui até elevados estudos filosóficos, considerando que só indivíduos especialmente dotados poderiam chegar à filosofia." Olga Pombo, Universidade de Lisboa

    Inferi ali de cima que "magistrado" significa "graduado". Fora isso gostaria de ressaltar o quanto nosso sistema de ensino é parecido com o idealizado por Platão; coincidência?
    É interessante ressaltar que a própria sigla Ph.D significa Philosophy Doctor, que em sua origem tem a concepção deveras acertada de que, mesmo após estudar certa ciência a fundo, para ser um profissional completo, dever-se-ia estudar filosofia.

     
^^^^^^^^^^^ Related Posts with Thumbnails